Ser pai nunca foi uma tarefa simples. Talvez a diferença seja que, durante muito tempo, esperava-se do pai principalmente que colocasse comida na mesa, mantivesse a casa de pé e fosse aquela figura firme que aparecia quando alguma coisa dava errado.
Hoje parece pouco.
Não porque sustentar uma família tenha deixado de ser importante, mas porque descobrimos que presença também sustenta.
Ser pai hoje é aprender a ficar.
Ficar quando a criança está alegre e quer contar pela décima vez a mesma história. Ficar quando ela está irritada e nem sabe explicar o motivo. Ficar na apresentação da escola, na consulta médica, na reunião de pais, no fim de semana cansativo e naquele momento em que tudo o que gostaríamos era de alguns minutos de silêncio.
É curioso: quando somos filhos, imaginamos que nossos pais sabem exatamente o que estão fazendo.
Depois nos tornamos pais e descobrimos o segredo.
Eles também não sabiam.
A paternidade tem muito de improvisação. Há decisões que precisam ser tomadas sem que exista um manual dizendo qual é a resposta certa. Corrigimos demais e depois pensamos que poderíamos ter sido mais pacientes. Permitimos alguma coisa e depois nos perguntamos se deveríamos ter colocado um limite. Em certos dias temos uma sabedoria impressionante. Em outros, só queremos chegar ao fim do dia sem grandes catástrofes.
E tudo bem.
Porque talvez uma das transformações mais importantes da paternidade contemporânea esteja justamente aí: o pai não precisa mais fingir que é invulnerável.
Pode abraçar.
Pode dizer “eu te amo”.
Pode pedir desculpas.
Pode admitir que errou.
Pode demonstrar medo.
Pode trocar fralda, preparar comida, levar para a escola, pentear cabelo, acompanhar terapia, ajudar na lição, passar a madrugada ao lado de uma cama durante uma febre e aprender os nomes de personagens infantis que jamais imaginou conhecer.
Nada disso diminui um homem.
Pelo contrário.
Há uma força enorme em cuidar.
Também existe algo de estranho no tempo quando temos filhos. Os dias podem ser intermináveis, mas os anos passam depressa demais.
A criança que ontem precisava ser carregada começa a andar. Depois corre. Depois já não quer nossa mão para atravessar determinados caminhos. Um dia percebemos que aquela voz mudou, que as roupas ficaram pequenas, que alguns brinquedos foram esquecidos num canto.
E talvez seja por isso que ser pai tenha tanto a ver com aprender a valorizar o cotidiano.
Não são apenas os aniversários, as formaturas ou as grandes conquistas que formarão nossas lembranças. Muitas vezes serão coisas insignificantes para qualquer outra pessoa: uma caminhada, uma piada sem graça, um desenho colocado na geladeira, uma conversa dentro do carro, uma criança dormindo no sofá.
A paternidade acontece principalmente nesses intervalos.
E há ainda uma responsabilidade difícil: preparar alguém que amamos profundamente para um mundo que não poderemos controlar.
Talvez esse seja o paradoxo de ser pai.
Passamos os primeiros anos tentando proteger nossos filhos de tudo. Depois precisamos, pouco a pouco, ensiná-los a seguir sem nós.
Criamos raízes enquanto sabemos que também precisamos oferecer asas.
Por isso ser pai não significa construir uma cópia de si mesmo. É acompanhar outra pessoa enquanto ela descobre quem deseja ser. Orientar sem sufocar. Colocar limites sem destruir a confiança. Ensinar valores e, ao mesmo tempo, aceitar que nossos filhos olharão para o mundo com olhos diferentes dos nossos.
É uma tarefa difícil.
E profundamente humana.
Neste Dia dos Pais, talvez não seja necessário transformar a paternidade em heroísmo. Pais se cansam. Pais erram. Pais perdem a paciência. Pais também precisam aprender.
O que importa é continuar voltando.
Voltando para a conversa.
Voltando para o abraço.
Voltando depois do erro.
Voltando para os filhos.
Porque, no fim, talvez eles não se lembrem de tudo o que receberam de nós. Nem de cada conselho que demos ou de cada esforço que fizemos silenciosamente.
Mas existe uma coisa que provavelmente permanecerá:
a lembrança de que, quando procuraram por nós, estávamos ali.
E talvez poucas definições de paternidade sejam maiores do que essa.
Feliz Dia dos Pais.