× Capa Meu Diário Textos Áudios Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Eduardo Nagai
O Seu Guia Literário
Textos

PÉ NA ESTRADA

Cheguei ao hotel no final da tarde. Assim que atravessei o portão, senti uma estranha sensação de retorno, como se estivesse revisitando uma página importante da minha própria história. A fachada era a mesma, o estacionamento era o mesmo, o cheiro discreto do lugar era o mesmo. Aquele hotel guardava uma memória especial para nós: havia sido o cenário do nosso primeiro encontro.

Dessa vez, porém, não era o mesmo quarto. O destino nos reservava o quarto 12.

Eu tinha ido de carona. Ela chegou quase ao mesmo tempo que eu, dirigindo o próprio carro depois de sair de um longo plantão. Quando a vi estacionar, senti aquela alegria silenciosa que só a presença de alguém especial é capaz de despertar. Ela saiu do carro ainda com um entusiasmo estampado no rosto, bastou me ver para abrir aquele sorriso familiar que parecia iluminar o final daquela tarde.

Nos abraçamos demoradamente.

Havia algo de peculiar em tudo aquilo. Não era apenas o hotel. Éramos nós. As conversas já conheciam seus caminhos. Os silêncios já não causavam desconforto. As mãos procuravam umas às outras naturalmente, como se soubessem exatamente onde deveriam estar.

Subimos para o quarto carregando nossas malas e nossas histórias.

Lá dentro, tudo parecia simples. Uma cama, uma televisão, uma pequena mesa e uma janela voltada para a cidade. Mas às vezes os lugares mais simples se transformam em cenários inesquecíveis quando as pessoas certas estão presentes.

A noite foi avançando devagar e sobre a mesa acumulavam-se petiscos, chocolates, amendoins, fatias de pizza e duas taças de vinho que insistíamos em reabastecer. Conversávamos sem perceber o tempo passar.

Em determinado momento, a conversa tomou um rumo mais profundo. Ela me perguntou como eu imaginava a nossa vida dali a dez anos.

Sorri. Encostei a taça na mesa. Pensei por alguns segundos antes de responder. Falei sobre estabilidade, sobre continuar cuidando dos meus filhos, sobre construir uma vida tranquila e cercada de afeto. Falei de sonhos que ainda guardava comigo e de projetos que desejava realizar.

Depois foi a vez dela. Contou sobre seus planos, sobre seu trabalho, sobre desacelerar, seus pacientes, suas ideias e os caminhos que ainda desejava percorrer. Falou sobre o desejo de continuar cuidando das pessoas. Falou sobre tudo aquilo que ainda pretendia construir.

Em alguns momentos dávamos risada das respostas. Em outros, permanecíamos sérios. Havia sonhos que pareciam distantes. Havia medos que raramente confessávamos. Mas naquela noite tudo encontrava espaço entre uma fatia de pizza, uma taça de vinho e a cumplicidade que se formava entre nós. Descobri que as conversas mais importantes não acontecem necessariamente em grandes ocasiões. Às vezes elas surgem em um quarto de hotel qualquer, numa noite comum, quando duas pessoas decidem abrir as portas do próprio futuro uma para a outra.

Dormimos tarde. Muito tarde. Estávamos em plena Copa, e havia um jogo que eu queria assistir muito, que era o jogo do Japão. Não que eu tivesse traído o meu Brasil, mas eu tinha um desejo de que o Japão fosse o campeão dessa Copa. O Brasil já tinha 5, o Japão nenhum. Era a hora do Samurai Blue vencer alguma coisa no futebol. Sei que parecia distante esse desejo, mas eu fiquei até tarde acordado para assistir àquele jogo. Porém, dormimos depois de muito beber, conversar, beijar, e outras coisas mais. Vi o placar apenas, vi que o Samurai Blue vencera por 4 a 0. fiquei contente, principalmente porque eu estava ao lado dela.

E quando a manhã chegou, trazendo a luz suave que atravessava a janela do quarto 12, tive a sensação de que o tempo havia corrido rápido demais.

Tomamos o famoso café do hotel sem a pressa corriqueira de todos os dias. Eu admirava os goles demorados que ela dava no café. Sempre fechando os olhos como se estivesse curtindo cada gole de café penetrando em seu organismo. Era incrível esse exercício que ela fazia sempre que nós estávamos juntos nos hotéis da vida.

Depois arrumamos nossas coisas. Ela me levaria de volta para casa. Eu insisti dizendo que não precisava, mas como a carona ia me levar tarde para minha cidade, então ela decidiu fazer isso. E esse gesto de cuidado me impressionara. Era lindo tudo que irradiava dela. Sua beleza, suas palavras, sua luz. Tudo era incrível nela. Ficávamos vários dias sem nos vermos, porém quando estava com ela era como se não existisse mais a distância, somente o toque.

***

Entramos no carro e iniciamos a viagem. Foi então que percebi que aquela estrada se tornaria uma das lembranças mais bonitas daquele fim de semana. O céu parecia imenso. Nuvens brancas caminhavam lentamente sobre nós, abrindo espaços para o azul aparecer como um oceano suspenso sobre a terra. Enquanto ela dirigia, eu observava a paisagem passar pela janela. As plantações. As árvores. Os morros ao longe. Os postes desaparecendo atrás de nós. Tudo parecia dizer a mesma coisa: a vida nunca para.

A estrada é parecida com a existência humana. Há trechos retos, onde tudo parece previsível. Há curvas inesperadas. Há subidas cansativas. Há descidas que aceleram o coração. Existem momentos em que enxergamos o horizonte inteiro. Outros em que a neblina impede qualquer previsão. Mesmo assim seguimos em frente.

Quilômetro após quilômetro.

Dia após dia.

Sonho após sonho.

Durante a viagem trocamos carinhos constantes. Em alguns momentos ela segurava minha mão. Em outros, eu acariciava seus cabelos quando o trânsito permitia. Havia abraços nas paradas e beijos rápidos carregados daquela tristeza antecipada que acompanha toda despedida.

Conversamos sobre músicas. Eu percebia cada vez mais que ela curte modão e pagode. Eu gosto de sertanejo moderno e rock. Essa diferença nos complementava. E percebia que em várias coisas eram diferentes, porém o amor nos aproximava em todas as diferenças. Conversamos sobre a infância. Sobre a nossa família que estamos começando. Sobre viagens que ainda queríamos fazer. Sobre cidades que sonhávamos conhecer. Sobre a vida que já tínhamos vivido e aquela que ainda esperava por nós em alguma curva do caminho.

O sol acompanhava nossa jornada como um viajante silencioso. E eu tinha a impressão de que o céu se abria diante do carro para permitir nossa passagem. Talvez fosse apenas imaginação. Talvez fosse felicidade. Talvez fossem as duas coisas.

Quando finalmente nos aproximamos da minha cidade, senti aquele aperto inevitável que surge quando um momento especial está chegando ao fim. As ruas começaram a ficar familiares. Os prédios conhecidos reapareceram. Os quilômetros acabaram. Mas a vontade de permanecer ao lado dela continuava.

Quando estacionamos, ficamos alguns segundos em silêncio. Nenhum de nós queria transformar aquele instante em despedida. Então nos abraçamos.

Um abraço longo.

Sincero.

Daqueles que dizem muito mais do que qualquer palavra.

Depois veio o último beijo.

O último sorriso.

O último olhar antes de ela partir.

Observei o carro desaparecer lentamente pela rua.

E ali compreendi uma coisa.

A estrada não existe apenas para ligar cidades.

Ela existe para ligar pessoas.

Para aproximar destinos.

Para criar histórias.

Naquele fim de semana, percorremos apenas alguns quilômetros sobre o asfalto.

Mas dentro de mim, a viagem havia sido muito maior.

E eu sabia que, enquanto ela continuasse caminhando ao meu lado, haveria sempre uma nova estrada esperando por nós logo adiante.

Prof Eduardo Nagai
Enviado por Prof Eduardo Nagai em 24/06/2026
Alterado em 24/06/2026
Comentários
O Crime da Arte R$ 54,81