Há dias em que viver
é atravessar uma ponte estreita
com o coração pesado
e o vento tentando nos convencer
de que cair é mais fácil
do que continuar.
A gente aprende cedo
que equilíbrio não é ausência de queda.
É esse gesto quase invisível
de levantar o olhar
quando os joelhos já conversam com o chão.
Eu também já quis uma vida reta,
sem curvas bruscas,
sem abismos no meio do caminho,
sem ter que fingir força
quando por dentro
tudo pedia colo.
Mas a vida não é linha.
É corda bamba.
É travessia.
É silêncio depois do susto.
É respirar fundo
quando ninguém percebe
que a alma acabou de tropeçar.
Há um homem dentro de mim
que ainda tenta entender
por que algumas dores chegam
sem pedir licença,
por que certos amores pesam tanto,
por que alguns sonhos
precisam desabar
antes de aprenderem a ficar de pé.
E mesmo assim,
apesar de tudo,
eu continuo.
Continuo porque há manhãs
em que a luz entra pela janela
como se Deus dissesse baixinho:
“Hoje, tente outra vez.”
Continuo porque minhas cicatrizes
não são somente marcas de guerra;
são mapas.
Elas mostram os lugares
onde quase me perdi
e, ainda assim,
me encontrei de algum modo.
Equilibrar-se na vida
é segurar numa mão a saudade
e na outra a esperança.
É aceitar que nem sempre teremos respostas,
mas ainda assim
preparar o café,
arrumar a cama,
abrir a porta,
dar mais um passo.
É saber que existe beleza
até no instante em que trememos.
Porque quem treme
ainda sente.
E quem sente
ainda está vivo.
E quem está vivo
ainda pode recomeçar.
Hoje eu não quero vencer o mundo.
Quero apenas caber em mim
sem me quebrar tanto.
Quero aprender a descansar
sem culpa,
amar sem me perder,
sonhar sem esquecer
de cuidar dos meus próprios pés.
Talvez o equilíbrio seja isso:
não eliminar o peso,
mas descobrir uma forma
de carregá-lo
sem abandonar a própria alma.
E se amanhã eu cair,
que eu caia sabendo
que o chão não é o fim.
Às vezes,
é só o lugar
onde a vida nos ensina
a levantar diferente.