Sim, eu conheci o amor
não aquele das fotografias felizes
nem o das promessas perfeitas
mas o amor humano, falho,
que treme nas mãos
e desaba em silêncio
quando percebe que não pode controlar o destino.
Amei como quem mergulha
num mar desconhecido
sem medir profundidade,
sem calcular correntes,
sem pensar no risco de afundar.
E afundei.
Houve noites em que meu peito
parecia uma casa abandonada.
Os cômodos da alma - vazios,
as janelas abertas para ventos frios,
o eco do seu nome
batendo contra minhas paredes internas
como chuva insistente.
Eu olhava o celular em madrugadas longas
como quem espera um milagre.
E cada ausência dela
era uma faca delicada,
dessas que não matam de uma vez,
mas lentamente
ensinam a dor a criar raízes.
O amor também possui ruínas.
Ninguém fala disso.
Ninguém ensina que existem abraços
que continuam queimando
mesmo depois do adeus.
Eu carreguei a memória dela
como quem carrega uma cidade incendiada
dentro do peito.
As ruas destruídas,
os prédios em pedaços,
mas ainda assim
incapaz de abandonar o lugar.
Porque amar é isso:
às vezes insistir na fumaça
porque um dia existiu fogo.
E houve revolta.
Houve perguntas lançadas ao teto.
Houve raiva do tempo,
raiva da distância,
raiva daquilo que não aconteceu
da maneira que sonhei.
Mas a pior dor
não foi perdê-la.
Foi perder a mim mesmo
tentando permanecer inteiro
dentro de uma história
que já estava se desfazendo.
Então veio o silêncio.
Não o silêncio vazio,
mas aquele silêncio cansado
que aparece depois das tempestades.
Aquele instante estranho
em que a alma para de gritar
porque já chorou tudo o que podia.
E foi ali,
entre os restos da desilusão,
que algo começou a nascer.
Não de forma grandiosa.
A cura nunca chega fazendo barulho.
Ela chega devagar.
Quase invisível.
Veio no gosto tranquilo de um café.
Numa música ouvida distraidamente.
Num sorriso inesperado.
Na capacidade de dormir sem lágrimas.
Na coragem de olhar o espelho
sem sentir culpa por continuar vivendo.
Até que um dia
o amor voltou.
Mas diferente.
Não veio como tempestade.
Não veio como urgência.
Veio como luz atravessando cortinas
num domingo silencioso.
Veio me ensinando
que amar não é desaparecer dentro do outro.
É permanecer inteiro
e ainda assim escolher caminhar ao lado, mesmo que distante.
Percebi então
que algumas pessoas entram em nossa vida
não para permanecer,
mas para abrir feridas
que o próprio amor precisará curar depois.
E eu fui curado.
Não porque esqueci a dor,
mas porque aprendi
que até as cicatrizes
podem florescer.
Hoje ainda existem saudades.
Ainda existem lembranças
que apertam o peito em noites específicas.
Mas já não doem como antes.
Agora parecem estrelas distantes:
continuam lá,
mas não queimam mais.
E quando penso em tudo o que vivi,
entendo finalmente
que o sentimento sublime não era ela.
Era a capacidade do meu coração
de sobreviver ao fim
e, mesmo assim,
continuar acreditando no amor.