A gente não começou com promessas,
começou com caminho.
Estrada cortando cidades,
nomes que agora carregam lembranças,
como se cada placa fosse um pedaço nosso
espalhado pelo mundo.
Você vinha cansada,
com o corpo marcado pelos plantões,
pelas horas que não cabem no relógio,
pelas vidas que passam pelas suas mãos.
E ainda assim,
tinha um jeito leve de chegar,
como quem encontra abrigo
sem saber que também é abrigo.
Eu vinha com esse riso meio solto,
tentando entender por que
tudo parecia tão rápido,
tão certo,
tão fora do lugar comum.
E no meio disso tudo,
um quarto qualquer —
sem história antes da gente,
sem importância depois —
virava mundo.
Ali,
entre silêncio e respiração,
a vida diminuía o peso,
como se lá fora fosse outra coisa,
outro tempo,
outro tipo de dor.
Você disse,
com a naturalidade de quem não mede impacto,
que eu tinha sido a melhor coisa
em anos.
E eu fiquei ali,
segurando essa frase
como quem segura algo frágil,
sabendo que algumas palavras
não pedem resposta,
pedem cuidado.
A gente não fala de futuro,
mas desenha sem perceber.
Não promete nada,
mas repete presença.
E assim seguimos,
de hotel em hotel,
de quarto em quarto,
como quem não precisa de endereço fixo
pra sentir que chegou.
Porque talvez
não seja sobre onde a gente dorme,
mas sobre o que acontece
quando o mundo lá fora pesa
e alguém,
sem esforço,
faz tudo ficar leve.
E se amanhã
for só lembrança,
ainda assim terá valido —
porque houve esse instante raro
em que dois caminhos cansados
decidiram, por um tempo,
andar juntos.
De hotel em hotel,
a gente vai aprendendo:
nem todo abrigo precisa durar pra sempre
pra ser,
de verdade,
um doce lar.