O quarto não nos conhecia,
mas aceitou nossa chegada
como quem guarda segredos
sem fazer perguntas.
A porta se fechou devagar,
e com ela o mundo ficou do lado de fora,
reduzido a ruídos distantes,
insignificantes.
À meia luz,
um silêncio cheio de intenção,
e dois corpos tentando entender
se aquilo era acaso
ou destino apressado.
O tempo ali dentro mudou de ritmo,
mais lento, mais denso,
como se cada gesto precisasse
ser sentido antes de acontecer.
Teu riso quebrou a formalidade,
teu olhar construiu um caminho,
e eu fui, passo a passo,
me esquecendo de qualquer antes.
Não houve pressa —
ou talvez tenha havido,
mas daquelas que não atropelam,
que apenas aproximam.
E no meio de tudo,
entre palavras soltas e silêncios cheios,
o quarto deixou de ser lugar
e virou instante.
Um instante desses
que não se mede em horas,
mas em intensidade.
Quando a noite terminou,
o quarto permaneceu igual —
cama arrumada, luz acesa,
paredes intactas.
Mas nós não.
Saímos dali
com algo que não ficou no quarto,
nem voltou com o mundo.
Algo que ainda pulsa
em algum lugar entre a lembrança
e a vontade de repetir.