Saí de casa como quem atravessa
um pensamento que ainda não terminou.
No bolso, pouca coisa:
chave, celular,
e uma ansiedade que não cabia em lugar nenhum.
A estrada não era longa,
mas parecia carregada de promessa,
como se cada quilômetro soubesse
que eu estava indo encontrar você.
Engraçado…
a gente se conhece há tão pouco
e já tem esse silêncio cheio
entre uma mensagem e outra,
esse espaço onde cabem
todas as possibilidades.
Você vem do trabalho,
cansada do mundo,
e eu te espero com o coração meio desobediente,
batendo fora do ritmo
como um samba que esqueceu a hora de parar.
Penso nas suas palavras,
nas coisas que você disse
com aquela naturalidade perigosa,
como quem acende fósforo perto de gasolina
e sorri.
A noite ainda nem começou
e já tem cheiro de pele,
de música baixa,
de conversa que escorrega devagar
até virar outra coisa.
Não sei o que vai acontecer —
e talvez seja exatamente isso
que deixa tudo mais bonito.
Porque hoje não é sobre chegar a algum lugar.
É sobre esse caminho
entre o que já sentimos
e o que ainda não tivemos coragem de viver.
E, no meio disso tudo,
tem você vindo —
às oito da noite —
como quem atravessa o dia inteiro
para se tornar possibilidade
nos meus braços.