A gente se encontrou como dois amantes,
como dois rios que não sabiam
que estavam indo para o mesmo mar.
Você vinha de silêncios longos,
eu, de palavras guardadas demais.
E no meio desse acaso
houve um instante —
breve, mas inteiro —
em que o mundo pareceu caber
no espaço entre nossas mãos.
Teu riso tinha gosto de manhã
e eu, que vivia em entardeceres,
aprendi a nascer de novo
cada vez que te olhava.
Éramos improviso,
como vento entrando pela janela
sem pedir licença,
bagunçando certezas,
levantando poeiras antigas
do coração.
Mas caminhos também sabem
ser labirintos disfarçados.
E, sem perceber,
começamos a andar
em direções que ainda pareciam juntas,
mas já não eram.
Você virou horizonte —
bonito, distante, intocável.
Eu fiquei sendo estrada,
cheio de marcas,
tentando entender
em que curva te perdi.
Não houve adeus gritado,
nem despedida que fizesse sentido.
Só um silêncio crescendo
como noite dentro da gente.
E foi ali,
no espaço entre o que fomos
e o que não conseguimos ser,
que o amor virou memória.
Hoje, quando penso em nós,
dói como sempre doeu —
é como tocar uma música antiga
que ainda sabe meu nome,
mas já não me chama para dançar.
Talvez tenhamos sido isso:
um encontro bonito demais
para durar,
e um desencontro profundo demais
para esquecer.
E mesmo assim,
em algum lugar que não sei dizer,
ainda somos
dois rios que se cruzaram —
e por um instante,
foram mar.