O precipício abre a boca escura.
O vento corta, gelado, sem promessa.
Recomeçar é saltar sem asa aberta,
medo cravado no peito como garra.
Não se vê o vale lá embaixo,
nem o fim da queda ou o começo do céu.
Só o vazio que grita: e se não voar?
Mas a águia não pede garantia.
Ela abre as asas no escuro,
confia no ar que a sustenta,
e sobe, feroz, sem olhar para trás.
Recomeço é isso:
medo no peito, voo no peito.
Alçar, mesmo cego, sem olhar,
porque o destino se escreve no ar.