Quem é esse que eu olho no espelho
Que sofre pelo seu grande amor
Que chora por uma eterna dor
Que busca uma verdade perdida
Nas letras de qualquer para-choque?
É alguém feito de restos de tarde,
de fotografias amareladas pelo tempo,
de promessas que ficaram abertas
como janelas em casas abandonadas.
Alguém que recolhe silêncios
como quem junta conchas na areia,
na esperança de ouvir de novo
o mar de uma voz que já partiu.
Carrego no peito uma cidade em ruínas,
com ruas onde outrora andavam
os passos de quem fui.
Há bancos de praça, tardes de chuva,
olhares que não se repetem,
mãos que escaparam devagar
como folhas secas no quintal da lembrança.
Às vezes o passado me chama baixo,
feito vento entrando por frestas,
e eu paro tudo só para escutar.
Ele diz meu nome e o seu nome sussurrados
com a delicadeza das coisas perdidas,
com a ternura triste
de quem sabe que não volta,
mas permanece.
Há memórias que doem sem alarde,
como um copo antigo sobre a mesa,
como uma canção ouvida ao acaso
num fim de tarde qualquer.
De repente, tudo retorna:
o cheiro, a luz, a hora,
o susto de sentir de novo
o que eu jurava já ter esquecido.
Mas também há beleza nisso,
nesse pó dourado que o tempo levanta,
nesse arquivo invisível da alma,
nessa maneira secreta
que a vida tem de não se apagar inteira.
Porque recordar também é resistir,
é guardar no escuro do peito
uma centelha contra o esquecimento.
E sigo, entre perdas e ganhos,
com o coração atravessado de ventania,
aprendendo que viver
é deixar partir sem deixar morrer.
As memórias não ficam presas:
elas voam.
Passam por nós como pássaros antigos,
tocam nosso rosto
e desaparecem no horizonte.
E eu, diante do espelho,
já não busco todas as respostas.
Basta-me saber
que fui feito também daquilo que perdi,
das dores que amei em silêncio,
dos nomes que o vento ainda carrega.
Porque há ausências
que nunca deixam de ser presença,
e lembranças
que continuam soprando dentro de nós.